quarta-feira, 31 de agosto de 2016

(L)

Não fica bravo comigo, eu sou a arte da emoção e não da razão,
Não preciso de um motivo para te amar... Amar você é a parte mais fácil e doce.
Não fica bravo comigo por eu quase não demonstrar,
É que ainda é difícil fazer isso sem ter o coração partido.
Não fica bravo comigo por causa desse tempo todo,
Teve uma hora que eu tive que tentar seguir com a minha vida...
 Foi bem difícil sem você me dando a mão e difícil não ver sua sombra junto da minha.
Eu deixei dois anos passar, se não tivesse sentido tanto medo de ser quem eu sou talvez
Você tivesse passado esses dois anos ao meu lado...
Talvez eu tivesse descoberto mais coisas maravilhosas sobre a reciprocidade do amor.

texto primeiro

Eu sou o homem. Sempre fui.
Respondão e que sempre apanhava por não saber bater.
Sou homem sem papas na língua.
Apanhei e continuo apanhando.
Falo todas as coisas que anseiam ser ditas e as que não anseiam também.
Contra partida também
Sou de poucas palavras sérias ditas mas
Quando escrevo faltam os dedos sangrarem,
Escrevo mais coisas interessante do que as que eu falo.
Sempre fui assim.
Minha boca sempre teve várias funções mas falar sério não é uma delas até hoje.
Minhas mãos, quando ganhei fiquei serelepe, 
Parecendo mocinha com o primeiro sutiã.
Nunca fui homem sério ou são.
Nunca fui homem de palavra e quem dirá sã.

texto segundo

Na madrugada vazia, 
Chamo Buko pra me fazer companhia 
E encher minha mente de ideias incomuns 
Aos olhos das pessoas comuns.
Ele me torna de palavra extremamente vulgar.
– Eu quero que se foda, penso.
Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, 
não sabia a resposta.
Tempos pra cá, 
Respondo que quero ser dose de Martini na boca de Charles Bukowski 
Na sua sepultura, 
Onde nem os bichos da terra sequer lembra que tinha alguém.

texto terceiro

Na lista das maiores merdas da humanidade, 
Meu nome está em terceiro ou quarto lugar.
Tudo que eu quero é a minha cerveja, 
O meu cigarro,  
Pra no final das contas me despedir e ir pra casa.
Nunca fui de pudores ao escrever, 
Se você tem seus pudores ao me ler… Foda-se.
Um Foda-se dito de boca cheia.
Na verdade não sou homem.
Sou mulher e faço o que eu quero e quando eu quero.
Muitas vezes me deparo com armadinhas que me fecham em gaiolas, 
Mas sempre fui pássaro safo. 

A mecânica do coração e apetitflamme

Meu coração é de lata.

Quando eu o deixo com frio os ponteiros congelam e fica difícil até para respirar, as vezes tenho crises e os médicos dizem que não é legal deixá-lo tão desamparado.
Quando eu o aqueço demais a chave derrete e fica impossível trocar qualquer tipo de sentimento que ele já tenha guardado.
Quando eu o esqueço, ele para.

Eu dei os meus olhos para que ele funcionasse bem  e agora meus olhos são câmeras fotográficas de baixa resolução e meu coração é um relógio de cuco.
(Não, não preciso de olhos para abraçar e cantar…)
é um relógio antigo de cuco…
(Je suis une petit flamme, mon coeur est mécanique) 

Insônia

Sou ladra de insônia em certas ocasiões
E aqui estou eu, 
Sem sono que me embale, 
Sem bocejo que me ocupe a boca.
Eu, a música e a luz da tela do computador sobre as teclas.

V

Não quero beijo sem nome, mão boba sem carinho, arrepio sem caricia e taça sem vinho.
Não quero palavra sem paixão, amor sem amizade, presente sem carta e ausência de sorriso de canto de boca.
Não quero toque, não quero amores que não são meus.
Não quero corpo nu em alma vazia.
Não quero promessas e “para sempre” em vão.
Não quero tristezas, não quero poesia de livro grosso esquecido no fundo do armário.
Não quero vestido, não quero roupa que me caia bem. 
Não quero espaço.

Quero abraço, Heineken e cigarros durante a noite.
Quero dança, aquela de dançar com os olhos.
Quero a música alta e os copos cheios.
Quero corpos cheios.

Martini

"Sou de pequenos e inúteis prazeres... Quem me conhece sabe, mas ninguém me conhece!"

L

Levantei, peguei uma água, tentei dormir e rolei. 

Rolei e cheguei à conclusão de que não conseguia pregar os olhos.
Duas músicas começaram a tocar, uma em cada ouvido.
Elephant Gun, já que estou viciada, dominava um lado.
Flamme a Lunettes dominava o outro, já que é minha favorita.
Enquanto elas tocavam, pude acender um cigarro como jamais havia feito.
Enrolada num cobertor, sentei-me na janela enquanto procurava qualquer coisa que chamasse minha atenção na rua.
Mas não havia uma estrela no céu que pudesse me contar uma história.
Não havia sequer uma pessoa que falasse na rua ou um carro que passasse.
Na minha procura por algo que tomasse minha atenção havia apenas um grande silencio. 
Foi quando, no final do cigarro, eu fechei uma parte da janela pro frio entrar aos poucos, passou um carro e a única coisa que eu pude pensar naquele instante: 
“Podia ser ele!”

IV

Tudo tende a se encaixar, e se encaixa.
Em algum lugar brotará um sorriso num rosto triste, 
Em algum lugar existirá meu colo para um abraço, 
Em algum lugar as estrelas tocarão o chão.

Num desses lugares que a vida simplesmente nos leva, 
Encontrei sabiá em silêncio,
Encontrei olhos em ruínas,
Encontrei esperança nas mãos e nenhum pão na boca.

The wall

Eu sempre tive uma certa paixão por lugares abandonados, sempre me passavam pela cabeça mil histórias que dariam ótimos serial killers ou romances incorrigíveis.
Essa minha paixão é bem antiga porque desde muito cedo eu acreditava que eu era como aqueles lugares abandonados, acreditava que ser diferente me possibilitava várias histórias, como aqueles lugares.
Até descobrir que, na verdade, minha atração pelos lugares antigos estava nas paredes, foi quando eu passei a admirar demolições, ruínas, locais antigos…
Fisicamente não faz sentido nenhum, já que se uma parede cair sobre mim certamente fará estragos…
Mas, até onde eu sei, elas não têm alma, se eu martelar um prego numa parede não a escutarei gritar de dor e obviamente, uma parede não mente e sabe guardar segredos (já que ouve muitas histórias…).

As vezes tenho vontade de ser uma parede descascada, sem janelas que atraiam olhares, sem porta para que alguém entre, sem teto pra sustentar e sem quadro pra contar história e ali ficar, sem que alguém sequer me note.

Avô

Quando eu era uma criança, o senhor das mãos, agora enrugadas, me colocava na garupa da bicicleta e “me tirava de lá”… Bem, eu não sei onde fica o “lá” mas era grande e escuro!
O pequeno senhor me levava todos os dias pra almoçar em sua casa enorme que com o decorrer dos anos mudava de cor, som e textura.
Os anos se passaram numa rapidez tremenda, antes eu desejava ser gente grande e hoje eu descobri que não tenho vocação. 
O senhor envelheceu ainda mais e hoje diz que só espera a sua mãe vir busca-lo, diz que sua esposa dorme com ele todos os dias e que já não tem medo da morte. Sempre foi um homem muito corajoso e bravo, um exemplo a ser seguido e com certeza o que eu chamo de “O pequeno grande herói dos Carvalho”.
De uns tempos pra cá, o senhor vinha apresentando falhas repentinas na memória, umas mais longas que as outras.
As piadas já não faziam sentido, o café já não tinha sabor, o frio lhe puxava as pernas e o sol da manhã anunciava a hora do cochilo.
Quando a estranha chegava, lhe perturbava até o primeiro sorriso e a primeira bengalada. 
Ela pensava “Vou ser ridícula ate você rir, foi nas risadas que nos conhecemos e nela, um dia, será também nossa despedida, quando eu sorrir, sempre terá uma risada sua nos meus lábios, quando eu chorar, vai cair uma lagrima sua, quando eu contar uma piada, você estará rindo junto comigo e assim nosso “tchau” não será um “au revoir” mas sim um “à plus tard”

Je l’aime…
Je t’aime plus que ma vie.

III

Amigas íntimas.

No mês de julho de 2008 tive o prazer de conhece-las e soube naquele momento que de alguma forma seriam elas as minhas amigas mais íntimas. 
Uma tem o nome de Saudade… 
Essa é uma das melhores… 
Não me deixa um segundo se quer, vai comigo a todos os lugares, nunca se separa de mim. 
A Saudade é bem cuidadosa quando o assunto é não me deixar sozinha.
A outra, um pouco mais durona, séria, não gosta muito de brincadeiras e detesta meus deboches é a Tristeza. Mas ela é daquelas amigas que se pode passar o tempo que for longe, nossa ligação só aumenta. 
Mas a Tristeza poucas vezes me visita…
É que ela não gosta muito de uma outra amiga minha, a Felicidade, sente ciúmes… 
Elas duas não se dão muito bem… 
Tem uma outra, a Angústia… 
Essa é como se fosse amiga virtual, pouquíssimo nos encontramos mas quando nos encontramos, acredite… As vezes parece que ninguém me conhece mais que ela!
Eu as conheci em 2008 quando um querido muito próximo faleceu… Elas foram as primeiras a me prestar suas solidariedades e me deram os abraços mais confortáveis.
Passado um tempo a Angústia e a Tristeza se afastaram um pouco… 
Mas a Saudade em nenhum momento me deixou… 
Essa ficou comigo todos os dias, me fez dormir algumas vezes…
No ano de 2010, quando minha avó faleceu minhas amigas retornaram para me consolar. Como a situação da minha avó era complicada, firmei na mente que o melhor era ela descansar, afinal, em breve nos veremos. 
A Tristeza vendo o quanto eu estava conformada me visitava muito pouco, a Angustia decidiu acompanhar.
A Saudade até hoje me coloca para dormir…

Nota adicional:
Ano passado quando perdi minha tia favorita e semanas depois, meu avô, elas vieram me consolar... Mas já voltaram para suas casas. 

1+1=69

Depois da tristeza, a alegria.
Depois do raio, o reconcilio.
Depois de passar mal, mais bebida.
Depois da música, o sexo.
Seguidamente um maço de cigarro pra dois.
Depois da noite, o dia.
Depois do levantar, a pressa.
Depois do almoço, descanso.
Depois da ansiedade, o aniversário.
Seguidamente, o sexo.
O vinho.
A dança a dois, os corpos movidos por música e sedução.
As taças na mesa enquanto os olhares se devoravam.
O sexo forte e o sexo frágil tornando o dois em um.
- A conta por favor! (Disse ele se voltando pro garçom)
A noite chorona molhando a barra da minha saia.
A chuva tentando me despir no trajeto até o carro.
A mão tentando me despir fingindo me secar.
Os olhos dele tentando captar minha imagem enquanto dirigia.
O quarto quente…
Os corpos ardentes…
As mãos deslizando pelos corpos.
As risadas tomando conta.
Aquele um mais um (69).


II

Quando eu cheguei na cidade, era tudim deserto.
Moça ficava na rua inté tarde não.
Moço ajudava o pai.
Colégio era coisa de quem tinha condição.
Moça pobre tinha que ser prendada, cozinhá, lavá…
Moça rica era prendada de tocá, pintá e desenhá.
Moço tinha que ser prendado, tinha que ter trabaio e casa boa pra moça morar.
Inté o casório, namorar era segura na mão da moça.
Inté casá moço sentava do outro lado do sofá!

I

Sou de Porto… 
Do porto dos meus segredos,
Do porto dos meus sorrisos,
Do porto das minhas dores. 
Sou boa companhia, mas também posso ser solidão… 
Posso ser escuridão! 
Sou a música alta… 
Sou mais música que carne, sou menos corpo que alma. 

Sou o vinho na taça.